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View Full Version : Cannabis vs Esquizofrenia



lequebecfume
02-10-2010, 01:52 AM
• 03-02-2010 • Saúde
por Ana Cardoso
(Psicopedagoga)

Cannabis vs Esquizofrenia

A comorbilidade entre perturbações mentais e perturbações por abuso de substâncias tem merecido um interesse crescente ao longo dos últimos anos por parte da comunidade científica. Este dado deve-se ao facto de, actualmente, ainda ser difícil determinar se uma patologia é resultado ou causa do uso regular de drogas, ou se faz parte de um síndrome de abstinência.

Ao longo da minha prática clínica constato que o consumo de cannabis é uma característica prevalente entre pessoas com esquizofrenia. Esse consumo poderá de igual forma interferir com o início de um processo terapêutico adequado, gerando atrasos no diagnóstico e tratamento, o que leva consequentemente a um comprometimento do prognóstico e a dificuldades adicionais na adesão ao tratamento.
A relação que se observa entre o consumo de cannabis e a esquizofrenia é conhecida desde há mais de 100 anos. Recentemente tem-se aprofundado este estudo devido à realização de numerosos trabalhos epidemiológicos centrados na avaliação da associação entre a cannabis e a esquizofrenia.

Alguns trabalhos encontraram taxas consideradas elevadas entre os 15 e 40%, de comorbilidades psiquiátricas e perturbações por uso de cannabis. Dos escassos estudos realizados em Portugal que abordam este tema, Carreira e Borrego (2007) registaram uma percentagem de 7,2% de psicoses por consumo de drogas em que a substância de eleição era a cannabis, o que, à luz dos conhecimentos actuais, é de grande relevância uma vez que se considera que o consumo de cannabinóides seja um factor de risco para a esquizofrenia.

Têm sido encontradas elevadas taxas de uso de cannabis à data do primeiro surto psicótico, havendo evidência de um aumento do diagnóstico de perturbação psicótica relacionada com o abuso dessa substância.

Contudo, os escassos estudos actualmente disponíveis na literatura sobre o tema são ainda controversos (Andreasson et al., 2003; Fergusson et al. 2003; Arseneault et al., 2004) não permitindo assim chegar-se a uma conclusão definitiva.

Numerosos autores apoiam a teoria da cannabis ser um factor de risco para a esquizofrenia, sugerindo que se o consumo se evitasse, bastantes casos de esquizofrenia se poderiam prevenir. Apesar disso, também ainda em relação a este ponto, existem alguns dados que contrariam a existência de uma associação linear entre o consumo de cannabis e a esquizofrenia.

Os resultados das investigações actuais que se têm dedicado ao tema revelam taxas crescentes de consumo de cannabis entre pessoas jovens em muitos países desenvolvidos, dando lugar a discussões sobre a possibilidade da cannabis poder precipitar a esquizofrenia em pessoas vulneráveis e de ser considerada um factor de risco. Até que se prove o contrário, o consumo de cannabis deve ser visto com um factor de risco, entre muitos outros (incluindo a predisposição genética e outras causas conhecidas) que, em conjunto, poderão provocar a esquizofrenia.

Apesar disso, existem indícios razoáveis de que os indivíduos com esquizofrenia que consomem regularmente cannabis têm mais sintomas positivos, mais recaídas, recaem com maior frequência e precisam de mais internamentos.

Neste sentido, um dos desafios mais importantes para a saúde pública é encontrar uma via eficaz de explicar aos jovens as consequências do consumo de cannabis.
Por conseguinte, é fundamental o desenvolvimento de métodos terapêuticos farmacológicos e a nível da educação para a saúde que sejam mais eficazes e que vão ao encontro das reais necessidades destes indivíduos.


http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=11911